Poemas, Sonetos e Baladas

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro a 19 de Outubro de 1913. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais no ano de 1933. No ano de 1947, assume as funções de vice-consul em Los Angeles, voltando ao Brasil em 1950. A sua carreira diplomática estende-se até ao final de 1968. Morre a 9 de Julho de 1980 na sua casa, no Rio de Janeiro.
Poemas, Sonetos e Baladas foi publicado originalmente em 1946 e é o mais importante e mais belo livro de Vinicius de Moraes. A edição contou apenas com 372 exemplares, numerados e assinados pelo autor. Editado pela escritora Eucanaã Ferraz, deste livro fazem parte alguns dos mais conhecidos poemas de Vinicius como por exemplo "Soneto de fidelidade", "Soneto do maior amor", "Baladas do Mangue", "Balada das meninas de bicicleta", "Poema de Natal", "O dia da criação" e "Soneto de separação". São poemas com uma escrita muito bela e melódica.
Classificação: 5/5
Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Que vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Poemas de Deus e do Diabo

José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901. Licencia-se em Filologia Românica em 1925, na Universidade de Coimbra. Em 1927, fundou a revista Presença, em conjunto com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, considerada como um marco da segunda vaga do modernismo português. Depois de mais de 30 anos a leccionar num liceu de Portalegre, José Régio volta a Vila do Conde onde morre a 22 de Dezembro de 1969. Quer a casa de Portalegre, quer a de Vila do Conde foram transformadas em museu.
Como vilacondense que sou, não ter ainda dedicado algum tempo a este grande poeta da cidade é para mim uma falta com alguma gravidade. Publicado em 1925, Poemas de Deus e do Diabo foi o primeiro livro que Régio escreveu usando o seu pseudónimo. O livro conta com 21 poemas e inclui também o posfácio escrito pelo autor para a 13ª edição original da obra em 1969. Nesse mesmo posfácio, Régio aborda temas como a sua experiência pessoal como escritor, as influências de autores de referência na literatura e o papel da critica literária. Apesar de esta ser apenas uma pequena amostra da genialidade do poeta, deixou o bichinho da curiosidade para explorar bem mais.
Classificação: 5/5
Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

À Sombra da Memória

À Sombra da Memória é um livro constituído por pequenos textos em prosa, escritos por motivações muito variadas e que seguem na continuação da obra de 1968, Os Afluentes do Silêncio. Eugénio fala de escritores e pintores, uns com quem privou de perto, outros não, recorda episódios da infância e tece algumas considerações sobre temas relacionados com a música, a poesia e a pintura. Ao abordar temas que lhe são tão queridos, Eugénio de Andrade vai mostrando quem é ele, não apenas através dos apontamentos de carácter mais autobiográfico (quando fala da sua casa de infância na Póvoa da Atalaia ou quando conta histórias do avô), mas também através de referências que permitem traçar um perfil estético, político e ético da sua escrita.
Este foi um livro comprado por engano. Peguei nele no expositor da Quasi achando que era de poesia e quando fui ver em pormenor as minhas compras, já longe da Feira, é que dei conta do erro. Apesar de conhecer muito pouco da obra de Eugénio, dei o benefício da dúvida à prosa do autor. E depois das páginas lidas quase em tempo record, concluo que fiz uma boa escolha. Noto que a prosa não era um registo que Eugénio se sentisse à vontade, mas as imagens que este transmite com as palavras mantêm a sua beleza. As paisagens dos Açores, as imagens de Fão (Esposende), mas principalmente as descrições de uma cidade do Porto que eu gostava de ter conhecido.
Classificação: 4/5
"Os senhoritos que, em gabinetes forrados a seda, decidem o que há-de ser ou não ser o país, não sabem da coragem, da fadiga, do desânimo, do heroísmo, do amor com que algumas almas - e não das mais insignificantes - trabalham de norte a sul, nesta terra que está muitíssimo longe de ser um quintalório deles. Os últimos anos do meu amigo foram gastos, não a investigar, como lhe competia, mas numa luta amarga, por suspeitar perdida, em secretarias de estado e ministérios, com aquela fauna engravatada que faz as leis, "não para apoiar as realidades úteis, mas para as impedir de funcionar"."

To Translate - A Viagem das Palavras

"(...)
Quando questionado sobre a justificação da analogia entre o pão e a tradução, Giarolo explicou que, apesar dos diferentes métodos de fabrico, há três coisas muito simples que são comuns ao pão em todos os países: a farinha, a água e o sal. Também a tradução tem “ingredientes” comuns, independentemente dos idiomas envolvidos: a língua, as palavras, algo que, como o pão, tem uma presença indelével no quotidiano.
Para além disso, as imagens do fabrico do pão, cuja recolha não foi certamente aleatória, correspondem ao paradigma da cultura de cada país – cultura essa que está espelhada na respectiva língua, no seu ritmo e musicalidade.
Desde a fluidez da relação com o Francês, à dificuldade de transpor para o Italiano o ritmo do Inglês, até à afirmação do tradutor de Hebraico de que traduzia um verso apenas por dia pelo esforço que lhe era exigido para pôr em Italiano a infinidade de significados de cada verso original, ainda à explicação da tradutora de Árabe de que tinha começado a traduzir porque queria estudar e não tinha acesso na sua língua a livros árabes e ainda à sugestão da tradutora de Saramago de que havia trechos dos seus livros que deviam ser traduzidos em música e não em palavras, o filme apresenta de uma forma poética, bela e muito completa no que consiste a arte de traduzir, a viagem das palavras."
Crónica completa aqui

O Processo

Joseph K. é um funcionário de uma instituição bancária, habitante de uma cidade e cidadão de um país dos quais o autor não nos dá quaisquer pistas de onde se situam. Como o título indica, a história gira em torno de um processo: o processo de K. Sobre este processo, o nome do acusado é a única coisa que se sabe. Aquando da sua detenção, K. não faz a menor ideia do crime por que está acusado ou se terá mesmo cometido algum crime. Os próprios agentes que o detêm não lhe dão essa informação. Durante a obra inteira, K. mantêm-se na ignorância sobre que tipo de processo é que se viu envolvido.
Adquiri esta obra pela curiosidade que tinha em lê-la mas também para perceber em que contexto se diz que uma determinada situação é "kafkiana". Daí nada melhor do que começar pela sua obra mais conhecida. Aquilo que no inicio do livro era uma narrativa estranha e que ficava cada vez mais surreal ao longo das páginas, veio a revelar-se uma narrativa impregnada de uma profunda, embora subtil, apreciação social, mas que ao mesmo tempo é o espelho de uma mente crítica, em desconformidade com os ritos sociais vigentes, aos quais lança inúmeros ataques. Publicado a título póstumo, este livro apenas nos é acessível porque Max Brod, amigo e confidente do autor, não lhe foi fiel ao ponto de satisfazer o seu último pedido: que queimasse todas as páginas por si escritas. É caso para dizer que ainda bem que este amigo não o fez, pois mostrou ao mundo esta obra-prima da literatura.
Classificação: 5/5
"Esforçarem-se por compreender que este grande organismo judicial está por assim dizer perpétuamente em equilíbrio instável; ao modificar-se algo por iniciativa própria, mina-se o chão debaixo dos pés e arrisca-se mesmo a soçobrar definitivamente, ao passo que o grande organismo recupera facilmente algures esta leve perturbação - porque tudo anda ligado - e permanece imutável; a menos, coisa muito provável, que não se torne ainda mais fechado, ainda mais vigilante, ainda mais severo, ainda mais malévolo."

As Aventuras de Robinson Crusoe

Depois de uma terrível tempestade que causou o naufrágio do barco em que seguia Robinson, este vê-se sozinho numa ilha deserta abandonado à sua sorte. Robinson começa então a escrever um diário onde conta todos os passos relevantes por que ia passando na ilha, desde a construção de abrigos para ele e para os mantimentos, passando pelos meios de subsistência que foi arranjando para se alimentar. Robinson passou 28 anos naquela ilha, sendo que apenas nos últimos anos do seu "cativeiro" é que gozou da companhia de Sexta-Feira, um selvagem que Robinson impediu de ser comido por membros da sua tribo.
Daniel Defoe baseou-se na história real de um marinheiro escocês que ficou preso numa ilha deserta, em condições semelhantes às romanceadas por Defoe, durante cinco anos. Apesar de possuir um lado particularmente voltado para o Divino, já que Robinson regularmente encomendava os seus sucessos a Deus e Lhe pedia auxílio nos momentos difíceis, esta obra acaba por mostrar até que ponto a natureza humana é capaz de se adaptar a condições tão extremas e agrestes, de maneira a conseguir obter uma qualidade de vida que lhe permitisse permanecer em segurança, fosse qual fosse o seu destino. Tal como diz o provérbio português, "a necessidade aguça o engenho".
Classificação: 4/5
"Numa palavra, a Natureza e a experiência ensinam-nos, depois de maduras reflexões, que as melhores coisas deste mundo só são boas enquanto bastam para o nosso uso; mas passando daí, já não nos servem para nada."

E o Prémio Nobel da Literatura 2009 vai para ...

... Herta Müller. Nasceu na Roménia em 1953, numa região de minoria de língua alemã. Poeta, romancista e ensaista, a sua obra é marcada pelas duras condições de vida na Roménia sob o regime de Ceausescu.
O júri destacou a "densidade da poesia e a franqueza da prosa, que descreve a paisagem dos desapossados". Peter Englund salientou, durante a sessão de perguntas e respostas, o facto de Herta Müller ter uma história forte para contar. Segundo o representante da academia, a escritora ficou "radiante" com a notícia do prémio.
Da autora estão publicados em português os romances O homem é um grande faisão sobre a Terra, edição da Cotovia, e A Terra das Ameixas Verdes, da Difel.

Informações retiradas daqui

Emmanuelle

Emmanuelle casou muito nova com Jean. Depois de um ano a viver sozinha em Paris, esta junta-se a ele em Bangkok. A sua estadia revela-se um turbilhão de novas sensações, onde a personagem principal procura viver a sua sexualidade de um modo total, sem tabus nem pudores.
Este é o primeiro livro que leio daqueles que estão dentro da classificação de literatura erótica. Apesar de em alguns momentos, o livro ser um pouco chato graças à constante exposição de teorias filosóficas relacionadas com o erotismo, as cenas eróticas mais explicitas fazem jus às cenas mostradas no filme com o mesmo nome.
Classificação: 3/5
"- Conhece a exclamação de Goethe: "Pára, instante: como és belo!"Porém, desde que o instante se imobiliza, acaba a sua beleza! Assim que se tenta eternizar a beleza, a beleza morre. O que é belo não é o que está nu, mas o que se despe. Não é o som do riso, mas a gargalhada que ri. Não é o traço sobre o papel, mas o momento em que se rasga o coração do artista."

Dia Internacional da Tradução

Celebra-se hoje, dia 30 de Setembro, o Dia Internacional da Tradução. A efeméride foi criada pela FIT - Federação Internacional de Tradutores - em 1991 com a intenção de tornar mais visível o trabalho dos tradutores e a sua importância num mundo cada vez mais global. A data escolhida para a efeméride não foi por acaso, 30 de Setembro é a data registada da morte de S. Jerónimo, patrono dos tradutores e um dos primeiros tradutores reconhecidos no mundo.
Para a comemoração deste ano, a FIT escolheu como lema "Working Together", no sentido de apelar a uma maior intercomunicação entre tradutores e dos mesmos com os seus clientes e a sociedade. O comunicado completo da FIT pode ser lido aqui.

O Deus das Pequenas Coisas

Rahel chega a Ayemenem, uma pequena cidade no estado de Kerala, Índia, numa tarde chuvosa de Junho, quando as monções já tinham começado. A vegetação parece subir enroscada nas paredes quando Rahel entra em casa, uma casa vazia com a varanda da frente deserta e o carro, um Plymouth azul-celeste, enterrado na lama. Rahel regressa a casa, vinda da América, para uma viagem pelo passado, as memórias que marcaram para sempre a família que a amou e a desprezou. Para lembrar a mãe, Ammu, que amava de noite o homem que os filhos amavam de dia, Velutha, membro de uma casta de Intocáveis. Mas sobretudo para reencontrar Estha, o seu irmão gémeo que se refugiou numa pesada mudez desde que passara por uma experiência traumática.
Esta é uma história que atravessa a vida de três gerações de uma mesma família numa Índia que atravessa um período politico conturbado com a afirmação de algumas ideologias, mas que, por outro lado, se conserva cristalizada nas suas origens, tradições e costumes. Apesar de, na minha óptica, alguns elementos culturalmente específicos devessem ser objecto de explicação, num aspecto geral a tradutora Teresa Casal fez um excelente trabalho ao trazer para os leitores as imagens marcantes, algumas até agressivas de tão cruéis, de um país cheio de contrastes como é a Índia.
Classificação: 4/5
"Não importava que a história já tivesse começado, porque há muito que o kathakali descobriu que o segredos das Grandes Histórias é elas não terem segredo nenhum. As Grandes Histórias são aquelas que já ouvimos e queremos voltar a ouvir. Aquelas onde podemos entrar e morar confortavelmente. Que não nos enganam com calafrios e finais acrobáticos. Que não nos surpreendem com o imprevisto. Que são tão familiares como a casa onde moramos. Ou o cheiro da pele de um amante. Sabemos como acabam, porém ouvimo-las como se não soubéssemos. Tal como, embora sabendo que um dia havemos de morrer, vivemos como se não o soubéssemos. Nas Grandes Histórias sabemos em vive, quem morre, quem encontra o amor e quem não o encontra. E, contudo, queremos saber de novo."
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